Definição de candidatos para a 2026 no Rio depende da Justiça

Definição de candidatos para a 2026 no Rio depende da Justiça



O Rio de Janeiro, berço político de Jair Bolsonaro e terceiro maior colégio eleitoral estadual do Brasil, atrás de São Paulo e Minas Gerais, vivencia um jogo de xadrez político: a definição dos candidatos a governador e senador depende não só dos partidos, mas também da Justiça Eleitoral e até da polícia. As duas principais chapas foram anunciadas na semana passada, mas decisões judiciais e investigações policiais ainda podem causar mudanças até 15 de agosto, data-limite para o registro das candidaturas.

Na direita, o governador Cláudio Castro (PL), de 46 anos, não pode concorrer novamente ao cargo porque foi reeleito em 2022. Ele está em segundo mandato porque em 2018 foi eleito como vice na chapa liderada pelo ex-juiz federal Wilson Witzel, que sofreu impeachment em abril de 2021, e assumiu o cargo

Reeleito no primeiro turno em 2022, com quase 60% dos votos válidos, Castro planeja agora se candidatar ao Senado, e para isso precisa deixar o cargo até abril.

Aqui começa o primeiro problema que depende da Justiça: não há um vice-governador e quem assumir o cargo até lá pode levar vantagem na corrida eleitoral. Mas as regras para que isso aconteça podem ser colocadas em uma disputa judicial.

De maio a dezembro, o governo do Rio seria ocupado pelo vice, mas o Estado não tem vice-governador desde maio de 2025, quando Thiago Pampolha renunciou para assumir uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado do Rio.

A lei prevê que, nesses casos, cabe aos deputados estaduais escolher um governador “tampão”, numa eleição indireta. Então, o Rio deve ter duas eleições para governador em seis meses – um indireta e outra direta.

No dia 24, Castro se reuniu com o pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL). Eles anunciaram a chapa do partido para a eleição de outubro no Rio: o candidato a governador será Douglas Ruas (PL), filho do prefeito de São Gonçalo, o capitão da PM Nelson Ruas, atual secretário estadual de Cidades. Douglas Ruas tem 34 anos. Ele foi eleito deputado estadual em 2022 com 175 mil votos.

A outra opção de nome para governador era o delegado Felipe Curi, que ganhou popularidade após a operação policial que matou 122 pessoas nos conjuntos de favelas do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio, em outubro passado. Mas estrategistas do PL entenderam que Ruas tem maior potencial eleitoral, por isso ele ficou com a vaga. Curi deve ser candidato a deputado federal e coordenar o plano de governo de Ruas para a área da segurança pública.

Quanto à eleição para governador em outubro, Castro e Flávio Bolsonaro concordam plenamente, mas há uma divergência importante entre eles relativa à escolha do governador “tampão”. Enquanto Flávio Bolsonaro quer que Ruas dispute também a eleição indireta, Castro defende que nesse pleito o grupo apoie Nicolla Miccione, atual secretário estadual da Casa Civil.

Aliados do atual governador cogitam levar a divergência à Justiça, com base em uma mudança instituída por lei aprovada há poucos dias pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

O prazo de desincompatibilização do cargo para disputar eleições comuns é de 180 dias (seis meses), mas a lei que regulamenta a eleição indireta para governador reduziu esse tempo para 24 horas. O plano dos aliados de Castro é questionar a Justiça sobre a validade dessa redução. Caso a Justiça exija o cumprimento dos 180 dias, nem Ruas nem Miccione poderiam concorrer, e a definição do candidato do grupo voltaria à estaca zero.

Ao menos o candidato a vice pela chapa já está definido: será Rogério Lisboa (PP), ex-prefeito de Nova Iguaçu. Os candidatos ao Senado serão Castro e o atual prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil).

Candidato da direita disputará com Eduardo Paes

A principal frente de oposição ao grupo de Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro é do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), que por várias vezes jurou completar o atual mandato à frente da prefeitura, mas semanas atrás anunciou sua pré-candidatura a governador.

Ele já concorreu ao cargo em 2018, quando foi derrotado pelo então desconhecido Wilson Witzel, numa surpresa eleitoral em que o apoio da família Bolsonaro ao ex-juiz federal foi decisivo.

Paes tem ampla votação no município do Rio, mas sabe da importância do bom desempenho na região metropolitana e no interior. Por isso escolheu a dedo seu vice, ou melhor, sua vice. Paes chegou a cogitar convidar Rogério Lisboa, que acabou se tornando vice na chapa do PL.

O prefeito do Rio então acabou se aliando à família de Washington Reis, que há anos domina o cenário político em Duque de Caxias (com 674.805 eleitores em 2024) e está inelegível. Representando a família, a vice na chapa de Paes será Jane Reis, irmã de Washington, advogada e casada com o pastor Rafael Corato, da igreja Assembleia de Deus.

Uma das vagas de candidato a senador na chapa de Paes será da ex-governadora do Rio e atual deputada federal Benedita da Silva (PT). O outro candidato ainda não foi definido.

Cláudio Castro pode ficar inelegível

Outra pendência judicial se refere ao governador Cláudio Castro, que pode se tornar inelegível e não se candidatar a senador. Ele é réu em uma ação que o acusa de abuso de poder político e econômico na eleição de 2022.

Trata-se do chamado “escândalo do Ceperj”, que também envolve o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar (União Brasil), e o ex-vice-governador Pampolha. A policia investiga se eles estão relacionados a uma folha de pagamento secreta com cerca de 20 mil cargos temporários no Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro) e na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), para beneficiar aliados e cabos eleitorais.

Castro foi absolvido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) em 2024, mas o Ministério Público Eleitoral recorreu e o caso foi para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Lá, em 4 de novembro de 2025, a ministra relatora Isabel Gallotti votou pela cassação do mandato e dos direitos políticos do governador e a convocação de novas eleições. “As condutas revelam elaborado esquema de uso da estrutura administrativa estadual e seus recursos com a finalidade de influenciar nas eleições”, escreveu a ministra em sua decisão.

No mesmo dia, o ministro Antonio Carlos Ferreira pediu vista do processo – na prática, mais tempo para analisar o caso – e o julgamento foi interrompido. Ele será retomado em 10 de março, mas o governador aposta que haverá novos pedidos de vista para adiar mais uma vez. Se for absolvido ou se o julgamento se estender até depois da eleição, em outubro, Castro poderá se candidatar.

A outra pendência refere-se à investigação da Polícia Federal sobre o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), que possui grande influência política e vinha sendo apoio importante para Castro e o PL na eleição. Presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) reeleito em fevereiro de 2025 com 70 votos a favor e nenhum contra, Bacellar era considerado forte candidato a governador, com apoio de Castro.

Mas o plano ruiu em 3 de dezembro do ano passado, quando foi preso sob acusação de vazar informações a respeito da operação que, três meses antes, havia resultado na prisão do também deputado estadual TH Jóias, apontado como integrante do Comando Vermelho. O relatório da Polícia Federal afirma que Bacellar desempenha a “liderança do núcleo político da organização criminosa em análise”.

Em 8 de dezembro os deputados estaduais do Rio aprovaram a revogação da prisão de Bacellar e o ministro do STF Alexandre de Moraes lhe concedeu liberdade provisória, determinando medidas cautelares como o afastamento do cargo (mas não do mandato) e o uso de tornozeleira eletrônica.

No final de fevereiro, a Polícia Federal anunciou o indiciamento de Bacellar e outras quatro pessoas por vazar informações à facção criminosa Comando Vermelho. Em relatório baseado inclusive em trocas de mensagens por meio de dezenas de celulares que seriam usados pelo parlamentar, a Polícia Federal afirmou que Bacellar criou uma rede de influência e troca de favores com outros políticos e integrantes de outros Poderes fluminenses. Por enquanto a investigação não afetou outros políticos, mas ela continua.

Em nota, o advogado Daniel Bialski, que representa o ex-presidente da Alerj, classificou o indiciamento como “arbitrário e abusivo” e afirmou que não existem provas concretas contra seu cliente, mas apenas “ilações desamparadas”.

Paes, que deve ser apoiado por Luiz Inácio Lula da SIlva (PT) e Ruas, o candidato do PL, devem enfrentar, nas urnas, pelo menos um ex-governador do Rio. Wilson Witzel tem alardeado que vai se filiar ao Democracia Cristã (DC) na próxima sexta-feira e vai tentar retornar ao cargo do qual foi retirado após pouco mais de dois anos, em 2021, por impeachment.

Outro ex-governador, Anthony Garotinho, chegou a cogitar se lançar candidato, mas deve concorrer a uma vaga de deputado federal pelo Republicanos. Seu filho Wladimir Garotinho, atual prefeito de Campos dos Goytacazes, também deve concorrer à Câmara Federal. Ele é filiado ao PP, mas foi convidado por Flávio Bolsonaro a se filiar ao PL, disputar uma vaga como parlamentar e coordenar a campanha presidencial de Bolsonaro no norte fluminense.



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