O adeus a António Lobo Antunes com o Sol a beijar o céu – Observador

O outro desejo, também realizado, foi a leitura do soneto Na Mão de Deus, de Antero de Quental, que era um dos seus favoritos. As memórias dos familiares, na cerimónia que durou cerca de duas horas, deram a conhecer além do escritor, o também avô, pai e irmão. “O impacto do António foi diferente em cada um de nós“, partilhou o irmão Manuel Lobo Antunes, que revelou a contradição de ter encontrado numa caderneta de estudante de António, na altura aluno do Liceu de Camões, uma média “nove” na disciplina de língua portuguesa — o que arrancou risos aos presentes.
No período em que foi combatente em Angola, escreveu uma carta para este seu irmão, “em português arcaico, como se o ‘Rei António‘ se tivesse armado em cavaleiro”. Foi esta uma das excentricidades da sua personalidade reveladas pelo irmão, que referiu também o cinzeiro que António usava, em forma de um “crânio invertido”. E citou o título de um dos seus livros, Os Cus de Judas, que na altura considerou “embaraçoso”, e, quando mencionado nesta tarde na igreja, soou como uma despretensiosa blasfémia cómica. “O dom da palavra sempre lhe pertenceu”, admitiu.
O neto mais velho, José Maria, fez a leitura de uma carta escrita para o avô, que justificou tratá-lo por “tu”, porque era como ele gostava de ser tratado pelo rapaz. No conteúdo, mencionou a “ternura, amor e paciência” que ensinou à família para que passassem adiante. E também recordou como foram os últimos dias do escritor, cercado pelos filhos a quem gostava de “dar colo”. Uma das suas três filhas viajou de Angola para o funeral, onde, diz o neto na carta, “foi também onde choraste por não vê-la nascer“. Em 1970, o Exército recrutou-o para combater na Guerra Colonial em Angola.
Um discurso escrito em nome das três filhas referiu o hábito de “pontualidade extrema” do homem que não usava relógios. Frequentava, enquanto os herdeiros eram pequenos, restaurantes com mesas forradas por toalhas de papel, que eram coloridas com lápis pelas crianças. “O pai conhecia bem os portugueses porque os ouvia, porque se interessava pelas pessoas”. E, enquanto médico, afirmava que “os doentes melhoram mais depressa se os médicos gostarem deles“.
