Das ocupações dos anos 1970 à reforma agrária de Petro: conheça Catalina Pérez Pérez, a líder camponesa que virou senadora na Colômbia

Das ocupações dos anos 1970 à reforma agrária de Petro: conheça Catalina Pérez Pérez, a líder camponesa que virou senadora na Colômbia


A senadora Catalina Pérez Pérez não está acostumada a participar de eventos como esses na Colômbia. E não porque não teve a oportunidade de participar em outros eventos internacionais, algo que fez com frequência durante seus 77 anos de vida. “É que aqui, em território da Colômbia, nunca se permitiu fazer uma conferência que colocasse o camponês no centro do debate”, diz ela ao Brasil de Fato.

A 2ª Conferência Internacional Sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (ICARRD +20) ocorreu em Cartagena entre os dias 24 e 28 de fevereiro e recebeu movimentos e autoridades de mais de 100 países.

Entre elas estava Pérez Pérez, a primeira líder camponesa a chegar ao Senado da Colômbia. No dia 8 de março, a senadora terá o desafio de manter o mandato, já que é candidata à reeleição. Se eleita, será sua primeira vitória eleitoral, já que perdeu as eleições em 2022, mas assumiu o mandato em 2023 após um companheiro de legenda ser cassado por problemas eleitorais.

Ao conversar com o Brasil de Fato, no entanto, a senadora não falou sobre eleições. A lei eleitoral colombiana proíbe que candidatos utilizem eventos oficiais para falar sobre o pleito ou suas candidaturas.

Ela falou sobre sua vida, sobre o governo do presidente Gustavo Petro, sobre o futuro da esquerda colombiana e, principalmente, sobre o avanço da reforma agrária no país.

Catalina Pérez Pérez e Gustavo Petro compartilhavam atividades políticas desde os anos 1980 (Arquivo pessoal)

Uma vida camponesa, uma vida do campesinato

A história de Catalina Pérez Pérez poderia ser contada através da história das lutas populares e camponesas na Colômbia. A começar pelo fato de que nasceu no mesmo ano em que o líder liberal Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, episódio que passou para a história como “Bogotazo” e moldou a história da Colômbia.

Aí está o embrião dos conflitos armados e pelo controle da terra que marcariam todas as ações na vida política do país nas décadas adiante até hoje.

Filha de camponeses da província de Córdoba, na região do Caribe colombiano, a senadora começou a se envolver em política desde cedo. Nos anos 1970, participou das primeiras tomas de terras do país conduzidas pela Associação Nacional de Usuários Camponeses (ANUC), histórica organização de luta no campo, que havia sido legalmente reconhecida pelo Estado colombiano em 1967.

Naquele momento, o presidente Carlos Lleras Restrepo tentava levar a cabo uma política de reforma agrária, ainda que tímida e muito controlada pelas elites fundiárias. Em 1971, em reação a um pacto firmado pelo sucessor de Restrepo, Misael Pestrana, que visava frear totalmente a reforma, o movimento camponês realizou as primeiras grandes ocupações coordenadas de terra do país.

Ali estava Catalina. Começou a cultivar as terras improdutivas tomadas pelos movimentos, mas foi presa e acusada de “subversão”. “Nos chamavam de guerrilheiros. Aqui nesse país, quem queria lutar pela terra era taxado de guerrilheiro”, diz.

Neste momento, veio a primeira de algumas prisões que a atual senadora teve que enfrentar até que, em 1988, ameaçada não apenas pelas autoridades, mas por latifundiários e paramilitares, teve que se exilar com sua família. A Áustria foi o destino escolhido para o exílio.

A líder camponesa volta à Colômbia apenas em 2009, com um salvo-conduto estatal por razões humanitárias, já que seus pais estavam doentes. Mas Catalina não planejava se afastar da luta política. Seguiu defendendo a causa da redistribuição justa das terras e da soberania alimentar, até que chegou a apoiar a candidatura de Gustavo Petro à presidência.

Aos 77 anos, Catalina Pérez Pérez é candidata ao Senado colombiano | Crédito: Lucas Estanislau

Leia os principais trechos da entrevista:

Brasil de Fato: A senhora participou do processo de reforma agrária do presidente Restrepo, depois a contrarreforma e a reação camponesa. E agora da reforma agrária de Petro viabilizada pelo Acordo de Paz. Quais são as principais diferenças entre esses dois momentos?

Catalina Pérez Pérez: Primeiro é preciso dizer que essa conferência ICARRD +20 manda uma mensagem ao mundo da importância que tem a reforma agrária a nível global. É assim que damos valor a um dos setores mais importantes da sociedade, que somos as camponesas e os camponeses. Eu sou a primeira senadora camponesa do país graças ao mandato do presidente Gustavo Petro. Estou nessa luta há 53 anos, uma luta pela terra e pela vida. Nossa consígnia nos anos 1960 era: ‘a terra é para quem trabalha nela’. Quando eu comecei nessa luta, entrei na ANUC linha Sincelejo. No ano de 1971, no dia 21 de fevereiro, em todo o país, no mesmo instante, fizemos mais de 800 tomadas de terra. Só conseguimos fazer isso desta maneira porque havia muita organização dos camponeses. Essa operação foi chamada de “Hora Zero”. E imagine, naquela época não havia smartphones, nem sequer telefones celulares, mas havia algo lindo, algo muito importante, que era a organização do campesinato. Então, nesse momento, ocorreram essas 800 ocupações de terra e os latifundiários só ficaram sabendo pela manhã do dia seguinte.

Uma das fazendas ocupadas foi a fazenda do latifundiário Chepe Posada, em Antioquia. Ali fizemos essa primeira grande ocupação, onde recuperamos 825 hectares de terra que foram distribuídas a 80 famílias camponesas. Entre eles estavam meus pais. Foi aí que eu me dei conta de que, quando o camponês tem a terra para trabalhar, ele não é mais escravo do latifundiário: ele produz, vive da sua produção e é livre. Porque quando você tem a terra, você vive bem.

“ANUC foi vítima de um dos maiores holocaustos da história da Colômbia”, diz Catalina Pérez Pérez (Arquivo pessoal)

As lutas no campo são marcadas pela violência, com traços muito dramáticos na Colômbia. Como a violência afetou a sua vida pessoalmente?

A reforma agrária não é nova. Aqui na Colômbia ela vem desde 1936, com a lei 200, sob o mandato de um dos presidentes que falou da razão social da terra, o presidente Alfonso López Pumarejo. Desde então, tivemos tentativas de reforma agrária, mas elas foram truncadas, interrompidas, precisamente por essa violência. Por exemplo, a ANUC. Ela foi uma organização enorme, mas foi vítima de um dos maiores holocaustos da história da Colômbia contra o campesinato que estava organizado e fazendo a reforma agrária. Nesse período, ocorreram muitos massacres no país. No meu caso, eu sou cordobesa, mas fui desalojada com violência e obrigada a ir viver em Sucre. Logo depois, passei 21 anos no exílio, na Europa Ocidental.

Eu fui tirada do país com auxílio da Anistia Internacional. Porque todo mundo que falava o que o governo não queria escutar era catalogado de guerrilheiro. Todas as vezes que fui presa, eles diziam que era porque eu era guerrilheira. Em 1979, na fazenda do latifundiário Gallino Vargas, que se chamava Mundo Novo, ali eu presa com um grupo de companheiros e companheiras. E me levaram sozinha ao Batalhão Junin do Exército, em Córdoba, onde disseram que fariam comigo um “conselho verbal de guerra”, para me julgar em um tribunal militar, porque diziam que eu era do M-19 [Movimento 19 de abril]. Diziam que eu estava envolvida com o roubo de armas do Cantón Norte, em Bogotá. Eu, a essa altura, nunca havia estado em Bogotá. Eu era uma camponesa. Foi uma violência. E a violência acabou com uma das maiores organizações da época, a ANUC. Foram muitos líderes que morreram e ainda estão enterrados em valas comuns dos paramilitares, como nas fazendas de Fidel Castaño. Nós sofremos uma repressão muito grande do Estado e dos paramilitares.

Essa violência tomou outras formas hoje, mas ainda não terminou. O presidente Petro, inclusive, é alvo de ameaças. O que representa para o movimento camponês manter um governo como esse no poder.

Para nós é uma imensa vitória ter, pela primeira vez na história, um governo como esse. Petro sempre lutou pelo bem-estar da Colômbia. O seu governo, sim, deu um giro na história do país. Ele distribuiu mais terra do que os dois governos anteriores, então estamos muito contentes. Mas, olhe, não tem sido fácil. Os latifundiários não estão dispostos a ceder as terras. O governo iniciou um programa de compra de terras, mas enfrenta problemas. E precisamos também avançar em outras áreas.

Na Europa, eu me dei conta de que não é importante somente ter a terra, senão também ter tecnologia, o mercado, as vias terciárias, e com isso o camponês possa deixar de ser o mais humilhado. Porque ele planta e colhe a mandioca, mas depende de outros para colocar o preço sobre sua produção. Na nossa bancada camponesa no Senado, estamos trabalhando para implementar os “mercados camponeses”, para criar centros de acolhida a esses pequenos produtores e que não dependam dos intermediários. Outro de nossos projetos é ampliar a titulação de terras para mulheres. Porque nos governos passados, por exemplo na falida reforma agrária de Lleras Restrepo, ele titulava a terra em nome dos homens. Enquanto eram as mulheres que levavam adiante a maior parte das lutas. Então nesse governo estamos colocando no centro a mulher camponesa, para que sejamos proprietárias e tenhamos o título da terra.



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