Marcha do 8 de março denunciará ‘o sangue das mulheres que está sendo derramado’
O 8 de março de 2026 chega em um momento de luto e luta para as mulheres brasileiras. Enquanto se preparam para as tradicionais marchas que marcam o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, os números de feminicídio não param de crescer e o país assiste estarrecido a casos que vão da violência conjugal à emboscada coletiva contra uma menor de idade no Rio de Janeiro, passando por assassinatos de mulheres e até dos filhos, seguido de suicídio dos agressores.
Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) faz um diagnóstico contundente da situação: “O 8 de março deste ano de 2026 é uma data na qual nós, mulheres brasileiras, estaremos defendendo o fim da jornada 6×1, o direito à vida além do trabalho, o reconhecimento da tripla jornada que exercemos. Mas ao mesmo tempo, a gente vai para a rua para denunciar que o sangue das mulheres está sendo derramado”.
Os dados são estarrecedores. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios — número que segue numa curva ascendente. Apenas no Rio Grande do Sul, estado onde a deputada se encontrava no momento da entrevista, foram 90 feminicídios em 2025 e mais 20 neste início de 2026, totalizando 110 vidas ceifadas pela violência de gênero em pouco mais de um ano.
“O feminicídio é um crime evitável, porque os sinais são oferecidos muito antes que ele aconteça. Ele está vinculado ou à violência doméstica, familiar, ou ao menosprezo contra a mulher. É isso inclusive que está definido na lei”, afirma Maria do Rosário.
O problema, segundo a deputada, é que esses sinais não encontram eco em políticas públicas efetivas. Ela cita o caso do Rio Grande do Sul, onde o governo estadual é um dos poucos que não assinou o Pacto Nacional contra o Feminicídio. “As iniciativas federais, as iniciativas do governo do Brasil não têm encontrado eco aqui.”
A deputada denuncia que recursos para a construção de Casas da Mulher Brasileira em Porto Alegre e Caxias do Sul estão disponíveis desde antes do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, mas as obras nunca saíram do papel. “O que a gente fez de pesquisa mostra que a mulher que mora no interior, na agricultura familiar, que trabalha de sol a sol, está completamente desamparada em termos de políticas públicas.”
As consequências são trágicas: “As mulheres que foram mortas no ano de 2025, para sobreviverem, para conseguirem ter uma chance de encontrar ajuda, teriam que caminhar ou conseguir transporte, muitas vezes de madrugada, sair de lugares remotos e viajar entre 50 e 100 quilômetros até um município que tem uma delegacia.”
“Isso não pode continuar acontecendo. As mulheres têm direito à vida e toda violência contra a mulher atinge todas nós. A facada que é dada em alguém atinge a mim como mulher”, desabafa.
A violência contra as mulheres, alerta Maria do Rosário, não se restringe ao âmbito conjugal. Casos recentes, como a emboscada coletiva contra uma menor de idade no Rio de Janeiro, escancaram uma nova e preocupante dimensão do problema: a violência praticada por jovens, alimentada por comunidades misóginas online.
“É a sociedade dos Red Pill, é a sociedade dos incels, onde a violência contra a mulher é cultuada e levou, inclusive, ao parlamento brasileiro, deputados que foram eleitos que defendem a violência e são violentos contra mulheres, autoridades públicas, um ex-presidente da república”, afirma a deputada.
Para ela, esse fenômeno está diretamente vinculado ao que chama de “fascistização da política e da sociedade brasileira”. “O fascismo é uma forma também de fomentar um tipo de masculinidade que é agressiva, que exerce o poder absoluto e esse poder absoluto retira da mulher a condição de existência autônoma e independente.”
“A violência contra a mulher construiu uma dimensão fortemente fascista na cultura brasileira, vinculada ao racismo estrutural e também à misoginia, que é o ódio às mulheres e à nossa autonomia, à nossa voz, à nossa existência”, completa.
A deputada também aborda a violência política sofrida por parlamentares mulheres, especialmente as negras. “É somente com a nossa participação política em todas as esferas, desde os municípios e também nas entidades, na sociedade civil, nas representações comunitárias, nos parlamentos e na disputa pelo poder, que vamos nos constituir com liberdade, cidadania, autonomia e direitos como cidadãs iguais.”
Em sua análise, Maria do Rosário conecta a opressão de gênero à exploração capitalista. “A gente enfrenta estruturalmente o próprio capitalismo, porque o nosso trabalho, aquilo que não é pago que a gente faz em termos de cuidado, de atenção para reprodução da vida, para as pessoas saírem para a escola e para o trabalho todos os dias, o cuidado com tudo que existe que tem a mão das mulheres não é pago pelo sistema capitalista.”
“É muito útil o patriarcado e a opressão para o próprio capitalismo. É muito útil que nós tenhamos que dar conta de tudo e que não existam políticas públicas, porque a mulher dá um jeito”, denuncia.
Apesar do cenário desolador, a deputada aponta caminhos. Ela destaca iniciativas em andamento, como o protocolo de enfrentamento ao assédio e à violência que será implementado em universidades e institutos federais, e o incentivo do Ministério da Justiça para a ampliação do uso de tornozeleiras eletrônicas em agressores.
“Olha, se tem uma coisa que salva a vida da mulher que está sendo ameaçada é a tornozeleira”, afirma. “Quando é definido que o sujeito vai ficar de tornozeleira e a mulher recebe um telefone para ser avisada quando ele se aproximar, isto faz com que ela tenha tempo de se deslocar e salvar sua vida.”
Ela revela a gravidade da situação no Rio Grande do Sul: das cerca de 12 mil medidas protetivas em vigor, apenas 800 agressores utilizam tornozeleiras. “Muitas sequer estão notificadas. O que faz com que mulheres, mesmo com medidas protetivas, possam ser alvo de violência.”
Neste 8 de março, Maria do Rosário convoca as mulheres para as ruas com uma mensagem clara. “Pela primeira vez um presidente da República, o presidente Lula, toma para si o enfrentamento da violência contra a mulher e ao feminicídio. Que os homens superem o seu machismo também no nosso campo político e apoiem mulheres feministas para os parlamentos, para a luta. É hora de ocuparmos mais e mais esses espaços, jamais baixando a cabeça diante de nada e sabendo que nós fazemos essa jornada por uma sociedade justa, digna para mudar nossa cultura e também por todas as mulheres e meninas”, conclui.
Para ouvir e assistir
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